As escolas de samba têm algumas coisas para ensinar a gestão as empresas com sua antiestrutura estruturada, mas estas não estão prestando muita atenção (ainda)
Por proporcionarem tipo de experiência unica, as escolas de sambas são a Disney pop-up do Brasil. Elas apresentam uma estrutura semelhante a uma linha de produção de fábrica que trabalha duro para entregar os clientes emoção, encantamento, alegria.
Só que a Disney virou um estudo de caso de gestão consagrado no mundo inteiro e nossas escolas de samba, não. Por quê? Não é por insignificância econômica.

Transmitido para mais de 100 países, o Carnaval brasileiro movimenta mais de R$ 5,5 bilhões por ano, segundo dados de 2012 do Ministério do Turismo, e impacta 52 setores da economia formal, fora a informal. O custo de cada desfile do Grupo Especial de escolas de samba do Rio de Janeiro, que dura cerca de 82 minutos uma vez por ano, gravita em torno dos R$ 10 milhões.
As escolas de samba têm chamado a atenção de pesquisadores de administração e negócios, como o professor Marcelo Chiavone Pontes, da ESPM São Paulo. Mas as empresas ainda não lhes dão atenção, diferentemente do que ocorreu com a Disney.
Deveriam dar. Nossas escolas ainda têm falhas que a Disney não tem, mas sabem lidar bem com uma série de problemas típicos das empresas e dominam algo que é cada vez mais importante: o improviso. Tem faltado sensibilidade aos gestores das empresas para olhar para o Carnaval com vontade de aprender.
Seguem alguns ensinamentos das escolas de samba apontados pelos professor Chiavone Pontes:
Satisfação do cliente comprovada
A escola de samba deve entregar emoção para pelo menos três públicos distintos –o folião que pagou caro para desfilar ali (o preço médio de uma fantasia é cerca de um salário mínimo), aquele que pagou ingresso para ver no sambódromo e o que fica em casa assistindo ao desfile pela televisão. E entrega, como analisa Chiavone Pontes. As escolas, na maioria, desfilam com capacidade máxima de foliões, os sambódromos lotam (no Rio e em São Paulo), e a transmissão de TV, só no Brasil, é vista por mais de 4 milhões de pessoas. Além disso, a quase totalidade das pessoas que desfilam sai da avenida satisfeita, querendo voltar e recomendando a experiência para os amigos no boca a boca.
Trabalho em equipe para valer
Tanto quanto os destaques e as celebridades que desfilam, a escola é formada por membros invisíveis, cuja função é controlar o movimento e os efeitos visuais, ou ajudar alguns passistas no desenvolvimento das coreografias, ou dar suporte para que os destaques da escola brilhem, ou fazer as alas não perderem o passo. E essas pessoas se motivam e aceitam fazer esse papel de bom grado.
Gestão dos mínimos detalhes
Uma escola de samba do grupo especial enfrenta uma concorrência acirrada – ganha-se ou perde-se um desfile por meio ponto de diferença. Como há pouco mais de uma hora para apresentar o trabalho de um ano inteiro, um erro é fatal para seu resultado na competição, sem segunda oportunidade, como analisa Chiavone Pontes. “Além disso, o desfile é o único espetáculo artístico do mundo em que não existe ensaio geral”, diz o professor da ESPM SP. Agora, imagine a chance de ocorrer erro em uma escola que desfila com cerca de 4 mil integrantes, porte de grande empresa. Multiplique 4 mil por pelo menos 10 coisas que podem dar errado – uma fantasia com brilho de menos, um passista que não cante o samba, um membro da bateria que atravesse –; é detalhe à beça para gerenciar.
Senso de pertencimento e comprometimento total
Observe integrantes da escola abrindo caminho para a velha-guarda, numa atitude de agradecimento com quem ajudou a construir aquilo. Ou o respeito geral dedicado à ala das baianas, que abençoam a escola trazendo seu axé. Ou ainda as pessoas reverenciando a bandeira da escola, beijando-a e colocando-a na testa para absorver sua energia positiva. Isso faz ter certeza de que as pessoas se sentem pertencendo àquela organização, como analisa Chiavone Pontes. E você acha que, na hora do desfile, alguém precisa pedir para o outro caprichar e dar o melhor de si? Não, o comprometimento é automático.
Tudo isso é sonhado pelas empresas. Algumas, como a Apple ou o Google, conseguem chegar até aí, mas é raridade.
Segundo Chiavone Pontes, o que explica esses fatores de sucesso (o que não poderia ser copiado por empresas), mas o que ele chama de “antiestrutura estruturada”.
Foi a antropóloga Maria Júlia Goldwasser, ao estudar a Estação Primeira de Mangueira, que veio com essa ideia, dizendo que as escolas de samba “se configuram como uma solução entre o princípio de estrutura, dada sua ordenação institucional, e o princípio da antiestrutura, dado seu caráter carnavalesco”. Ou seja, a essência delas é essa antiestrutura estruturada.
“Podemos afirmar que aquele aparente caos que se verifica nos ensaios e na concentração dos sambódromos, não é um caos, nem é uma ordem completa. É uma reordem, um estado muito mais adequado a um ambiente que, como já mostramos, pode ser complexo, caótico e sempre muito criativo”, como explica Chiavone Pontes.
E a antiestrutura estruturada se apoia em três agendas, a intelectual, comportamental e a emocional, conforme ideias defendidas pelo consultor e professor suíço Didier Marlier (desconfio que há uma grande chance de você, que trabalha em uma empresa, querer essas agendas para chamar de suas).
A agenda intelectual da escola de samba é de obter a participação de todos, entendendo que as boas ideias não são propriedade apenas dos ocupantes de níveis hierárquicos superiores. Ideias de novos materiais, novos andamentos de bateria, novas coreografias, novos efeitos e novos enredos só se conseguem com a participação ativa de todos.
A agenda comportamental da escola de samba se refere ao exemplo que vem de cima dos líderes. Como exemplo, Chiavone Pontes lembra que, sabendo que todos os integrantes da escola precisam saber cantar o samba, para que não se perca ponto no quesito harmonia, os diretores de uma escola são os primeiros a decorar a letra. Vale acrescentar que várias escolas de samba são lideradas por mulheres, em uma proporção maior do que a que vemos nas empresas.
A agenda emocional da escola de samba mostra que os líderes usam símbolos, histórias, metáforas, gestos, ou seja, marcadores emocionais, para todos se envolverem profundamente com a escola.
As empresas deviam, ou não, prestar atenção nas escolas de samba? Claro que há problemas, mas também os há na Disney e em qualquer empresa. Fora que tem aquela lição extra que vêm da Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, inclusive: “…e, no entanto, é preciso cantar; mais que nunca, é preciso cantar”.
Fonte: Terramagazine
